A ausência dos pobres diabos, deserdados da terra, na historiografia oficial – a começar pelos “tapuios” que habitavam a zona que os brancos apelidaram de “Aldeia”, e, por fim, as gerações de tapuios que os sucederam – é algo tão gritante, tão escandaloso e revoltante que, paradoxalmente, à revelia de seus algozes, esse apagamento quase absoluto torna-os presentes. Por exemplo, nas façanhas do povo cabano, que eu, escondido atrás da porta, ouvia a minha avó cochichar, temerosa, com outros adultos, como se o assunto tivesse algo de pornográfico ou criminoso. Ou na figura socialmente insignificante, mas simbolicamente poderosa do pedreiro Alírio de Castro Filho, vulgo “Banana”, que, sem Partido ou ideologia, movido unicamente pelo instinto de classe, tombou mortalmente ferido ao lado do prefeito cassado e caçado, Elias Pinto, numa fatídica tarde de 1968, atingido pelas pitombas de aço disparadas por agentes da oligarquia política urbana, contestada pelo voto, que até hoje dita as regras e aplica o porrete em Santarém. Como bucha e alvo de canhão, é dessa maneira que os pobres da terra (caboclos, indígenas, quilombolas, ribeirinhos) entram na História. Nas entrelinhas de uma profusão de relatos, notícias e informações, “garimpadas” em papéis carunchentos, arquivos poeirentos, amarelecidas páginas de extintos jornais ou nas grotas da memória, a “vida invisível” dos legítimos donos desta terra clama por decifração. Tornar consciente essa necessidade é, provavelmente t e, ao lado de outras qualidades, o mérito primordial desta obra.”

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