terça-feira , 31 março 2026
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o impacto da tarifa de Trump


A reação do mercado brasileiro a princípio positiva após o “Dia da Libertação” de Donald Trump com anúncio de tarifas recíprocas pode levar a uma visão de que o impacto será positivo para a economia brasileira, ainda que de forma indireta. Contudo, as incertezas ainda devem dar a tônica e abalar as perspectivas de crescimento global, o que invariavelmente afeta as perspectivas de crescimento econômico para o país.

A tarifa-base de 10% estabelecida para o Brasil (a mínima estabelecida entre os mais diversos países) foi vista como positiva em termos relativos para o país, ainda que a medida no geral seja vista como negativa em termos absolutos.

Em relatório, a equipe de estratégia da XP aponta a visão de que as tarifas impostas ao Brasil foram mais brandas do que as direcionadas a outros países. “No entanto, permanecem riscos relevantes, como a tarifa base de 10% sobre todas as importações, que pode afetar importantes produtos exportados para os EUA”, avaliam os estrategistas da XP.

Além disso, pode haver um foco maior da China em investimentos estratégicos em infraestrutura no Brasil e na América Latina. A China ampliou, desde o ano 2000, significativamente seu investimento estrangeiro direto na região, com um CAGR (taxa de crescimento anual composta) de 16,3% em 20 anos, somando US$ 73,3 bilhões em investimentos em infraestrutura no Brasil entre 2007 e 2023, distribuídos em 264 projetos, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

Já as tarifas sobre o Brasil menos severas em comparação com o restante do mundo podem posicionar o país como menos exposto ao risco tarifário, favorecendo a continuidade da rotação de fluxos de capital para fora dos EUA.

Para Luis Stuhlberger, presidente e chefe de investimentos da prestigiada gestora Verde Asset, o Brasil foi “muito beneficiado” pelos impactos do tarifaço. “O Brasil saiu muito beneficiado dessa história, porque como a gente tem uma balança comercial equilibrada para os EUA, essa conta, essa métrica, dá zero. Zero de tarifa. Quem dá zero tem o mínimo de 10%”, afirmou o executivo em evento de lançamento de fundo de previdência privada multimercado Verde Icatu. “Resta saber se o Brasil vai saber aproveitar essa oportunidade”, acrescentou.

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Lucas Farina, analista de economia da Genial Investimentos, também aponta como positivo o Brasil, fortuitamente, ter ficado no grupo de países que foi impactado pela alíquota mínima de 10%, junto com outros fortes aliados dos EUA como o Reino Unido, Cingapura, Chile, Austrália e Nova Zelândia.

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“A despeito dessa surpresa positiva para o caso brasileiro, as maiores vantagens podem ser colhidas nos efeitos secundários, com a boa situação relativa do Brasil podendo se refletir em ganho de market share das exportações do país no mercado global. Adicionalmente, o timing é benéfico dado o mau momento vivido pela balança comercial brasileira, que vem pesando sobre o saldo em transações correntes”, avalia Farina.

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Pontos negativos

Por outro lado, dentre os pontos negativos, a tarifa base proposta de 10% sobre todas as importações pode impactar os principais produtos exportados pelo Brasil aos EUA. Dentre eles, petróleo bruto, aço semiacabado e café.

Enquanto isso, o fortalecimento das relações estratégicas entre Brasil e China pode gerar barreiras comerciais. Os estrategistas ressaltam o histórico dos EUA de adoção de medidas comerciais contra o Brasil, como disputas anteriores envolvendo tarifas sobre o aço e cotas para o etanol. Uma maior aproximação entre Brasil e China pode afetar os fluxos comerciais e de investimento direto.

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A XP também ressalta que uma guerra comercial prolongada pode levar a uma desaceleração mais aguda nas economias dos EUA e global.

É nesse sentido que residem algumas das principais preocupações pós-tarifaço do Trump. Para a equipe econômica do Bradesco, as tarifas recíprocas no geral maiores do que o esperado terão impactos relevantes para a economia norte-americana, mesmo sem retaliação dos outros países.

O banco estima alguns impactos iniciais, ainda com incerteza sobre alguns detalhes do anúncio e sem conhecer as medidas que os outros países podem adotar. A elevação da tarifa média para 24%, reduziria o PIB dos EUA de 2% para até 0% em 2025. Ao mesmo tempo, o impacto sobre a inflação é da ordem de 1 ponto percentual (p.p.), levando a estimativa para o núcleo do PCE (medida de inflação ao consumidor preferida do Fed) de 2,5% para 3,6%.

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Em um exercício também inicial, o PIB global pode ceder de 3,1% para 2,5%. “Essas contas são muito dependentes das reações dos outros países, como eventuais novos acordos comerciais e retaliações, bem como dependem das elasticidade da demanda, efeito substituição e compressão de margens corporativas”, avalia o banco.

Assim, aponta, o efeito de um menor PIB global poderia retirar 0,5 p.p. do PIB brasileiro, considerando a relação histórica entre o crescimento global e o doméstico. “Mas o efeito final dependerá do viés de alta que vínhamos observando no primeiro trimestre, medidas de estímulos do governo que vinham sendo adotadas e condições financeiras globais”, avaliam os economistas, não mudando por enquanto as suas projeções.

Já os impactos sobre a inflação brasileira são bastante complexos de estimar. Na visão dos economistas, o PIB menor poderia retirar 0,15 p.p. da inflação (IPCA), em um exercício parcial, que não considera eventuais impactos no câmbio e nem nos preços globais dos produtos importados.

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Com as restrições de comércio com os EUA, é provável que haja uma redução dos preços de bens importados por nós, especialmente de produtos vindos da Ásia, mas valem as mesmas ressalvas feitas às simulações para o crescimento.



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